De São Paulo a Barcelona: minha história até aqui

Como, quando e por que decidi deixar o Brasil para estudar jornalismo de viagens em Barcelona

de São Paulo a Barcelona

Costumo a viajar com a minha família desde que tenho 10 anos. Minha primeira viagem internacional foi pra França, em 2005, quando meu pai foi como professor visitante na  na EHESS (École des Hautes Études en sciences sociales em Paris). Naquela época, eu e meus irmãos éramos todos crianças. O Rafa, meu irmão mais novo, tinha acabado de completar 1 ano. Quando demos a notícia à família e amigos, acharam uma loucura viajarem com cinco crianças. Mal sabiam todos que essa seria a primeira, de muitas aventuras que iríamos embarcar juntos!

Nunca ficávamos em um só lugar. Em todas as nossas viagens, tínhamos uma base, geralmente uma casa alugada (na época não existia Airbnb) e de lá íamos de carro para cidades próximas e países vizinhos para conhecer diferentes lugares. Meu pai é historiador, então desde sempre as viagens eram extremamente educativas: com pouca idade, eu e meus irmãos já sabíamos o que era uma igreja gótica, como era o estilo românico, quais eram as características de uma pintura impressionista. Isso poderia muito bem ter nos tornado crianças insuportáveis, mas nós cinco sempre prestávamos muita atenção nas explicações do meu pai, fazendo perguntas e brigando pra ver quem ia ler o folheto explicativo do museu, monumento ou castelo que visitávamos.

Já minha mãe, sempre foi a nossa maior fonte na questão gastronômica, que na minha opinião, muitas vezes diz muito mais sobre a cultura de um lugar do que sua arquitetura, por exemplo. A verdade é que a gastronomia conta a história de um lugar, e foi isso que minha mãe sempre nos passou. Em todas as cidades que parávamos, ela fazia questão de nos levar para experimentar os pratos típicos da região. Nós tínhamos o lema “como de tudo, mesmo que não goste”. Elas nos ensinou desde cedo a importância de provar gostos e texturas diferentes, que muitas vezes podem nos surpreender.

Uma cena que tenho muito forte na minha mente é de, em diversas ocasiões, estarmos em alguma cidade, no meio de um mercado ou praça, e minha mãe desaparecia por alguns minutos e voltava com alguma coisa nas mãos. Algo local – um pão, um doce, castanhas e até frutas. Dividíamos entre nós sete, sempre um pedacinho para cada um, nunca com exageros. Quando ficávamos em casa, ela ia nos supermercados da cidade e passava horas avaliando os produtos locais e comprando o que tinha de mais típico, para levar pra casa e ela mesma aprender a fazer. Foi assim que ela aprendeu a preparar couscous marroquino, cocido madrileño, paella, frittaten zoup e até rognon de boeuf (rim de boi), que depois virou uma piada interna da família.

Em uma das nossas viagens para a Europa, fizemos um roteiro por algumas universidades da Inglaterra como Oxford e Cambridge. Na época, meu pai dava aulas como professor visitante em Londres. Foi nessa viagem que algo mudou dentro de mim. Eu lembro de andar pelas ruas dessas cidades universitárias e passar na frente de janelas de residências estudantis e ver alunos sentados em suas escrivaninhas estudando, com um abajur ao lado, uma xícara de chá, computador, livros e anotações espalhadas pela mesa. Olhando de fora, no frio e na chuva, parecia ser uma grande aventura o que eles estavam vivendo, além de ser uma cena extremamente aconchegante. Eu ficava imaginando o que eles estariam estudando, qual o curso que faziam, se era graduação ou pós, qual era a história de cada um desses estudantes.

Nessa época, eu nem estava na faculdade ainda, mas eu já sabia que um dia ia estudar fora do país. Um dia eu também teria um meu cantinho com uma mesa para estudar, em uma cidade antiga e cheia de história.

O tempo passou, me formei na faculdade mas não realizei o sonho de estudar fora. Tive outras experiências internacionais que mudaram minha vida, como os intercâmbios que fiz pro Walt Disney World Resort e muitas outras viagens que fiz entre família e amigos. No fundo, por mais que eu nunca tivesse admitido pra mim mesma, esse era um grande arrependimento da minha vida. Minha faculdade oferecia opções de intercâmbio, a famosa “graduação sanduíche”, com a possibilidade de fazer um semestre ou um ano fora, mas na época, com a cabeça de uma jovem de 20 anos, a ideia não me pegou. Claro, optei pelo intercâmbio de trabalho na Disney que fiz em 2014 e em 2017 e não me arrependo nem um pouco de ter tomado essa decisão, mas até hoje me pergunto o que me fez esquecer desse sonho antigo.

O tempo passou e eu cresci. Minha carreira mudou diversas vezes. Fui do cinema pro marketing. Do marketing pra redes sociais. De redes sociais de volta pro marketing, pra depois voltar pro cinema e voltar pra redes sociais. Até que cai de paraquedas no jornalismo. Em 2021, enquanto passava pela pandemia e por um frustrado emprego no mercado financeiro, apareceu uma oportunidade para trabalhar na CNN Brasil, na editoria de Viagem & Gastronomia, na área de redes sociais. Parecia um sonho: criar conteúdo sobre viagem, um dos meus assuntos favoritos, em um dos meios de comunicação mais famosos do mundo.

Embarquei nesse desafio e fiquei lá por quase três anos. E quando eu digo que isso foi uma virada de chave na minha vida profissional, não estou exagerando. Eu sempre gostei de viajar e dar dicas de viagens. Nesse ponto eu já tinha o Main Street Blog, mas sempre quis mais. E foi assim que eu descobri que queria trabalhar com viagens.

Em 2023, comecei a buscar cursos de jornalismo de viagens. Me deparei com alguns na Casper Líbero e na Belas Artes, mas um blog me chamou atenção. Um post da Natália Beccatini do 360 Meridianos apareceu por acaso pra mim, onde ela contava sobre um curso em Barcelona sobre exatamente o tema que eu estava buscando. Mas tinha um porém: era um máster presencial com duração de 1 ano.

Nesse momento, alguma coisa se acendeu dentro de mim. Lembra daquele sonho antigo dos estudantes na janela em Oxford? Foi essa a imagem que surgiu na minha cabeça. Depois de mais de 10 anos dessa visão, fui recebida por uma sensação reconfortante, de que esse deveria ser o caminho a seguir. E foi. Me inscrevi, participei do processo seletivo, passei e aqui estou. Hoje faz exatamente um mês que cheguei em Barcelona, e o sentimento é de estar exatamente onde eu deveria. Eu tenho minha escrivaninha, mas troque a janela e o clima chuvoso por uma terraza ensolarada e temos o cenário perfeito de uma estudante na Espanha.

A aventura está só começando, mas por aqui pretendo postar meus textos pessoais, meus trabalhos da faculdade, pensamentos, roteiros e palavras que surgirem na minha mente durante esse ano morando na Espanha e estudando jornalismo de viagens. Quase que como o diário de uma futura jornalista que está completamente encantada pela profissão.

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Sobre mim

Sou Theresa, cineasta que recém descobriu sua vocação: jornalista de viagens. Me mudei pra Barcelona no início de 2024 para fazer uma pós graduação nessa área e por aqui compartilho minhas histórias e projetos que tenho desenvolvido dessa minha nova fase.