Cemitério de Poblenou é o mais antigo de Barcelona e testemunha a história da cidade através dos séculos

Com influência egípcia e simbolismos a cada esquina, o Cemitério de Poblenou reconta a história de uma Barcelona do século XIX que sofria com doenças e conflitos

Barcelona, 1775. A cidade se vê cercada por muralhas – e pela morte. A Barcelona do século XVIII era um local chave para o comércio por conta do seu porto que dava livre acesso ao mar mediterrâneo. Navios do mundo inteiro chegam com especiarias, tecidos, joias, arte e doenças. A Peste Bubônica, uma das enfermidades mais comuns da época, devasta a cidade, causando a morte de centenas de pessoas. Naquela época, os corpos eram enterrados nos cemitérios paroquiais, ao lado das igrejas, no caso dos pobres. Já os ricos eram enterrados no interior dessas mesmas igrejas. Mas com tantas mortes nesse período da história, faltava lugar para sepultar os que deixavam este plano.

Para resolver o problema de espaço, cheiro e contaminação dentro das muralhas, o bispo de Barcelona, Josep Climet, chega a uma solução: transferir os restos mortais para fora da cidade. Na época, perto da praia de Mar Bella, existia um terreno desabitado na região que hoje é conhecida como Poble Nou (Pueblo Nuevo). E assim funcionou por muito tempo, um local esquecido pelos moradores da cidade, onde os mortos descansavam fora das muralhas. Porém, o cemitério (até aquele momento improvisado) foi destruído pelas tropas napoleônicas, que não deixaram pedra sobre pedra.

Em 1819, entra em cena o personagem que mudará o destino do cemitério para sempre: Antonio Ginesi. O jovem arquiteto italiano é o responsável pelo projeto, e se hoje vemos o estilo neoclássico com influência egípcia, é graças a ele. Pirâmides se misturam com colunas dóricas e o resultado quase beira o Kitsch, mas que faz todo o sentido quando entendemos a trajetória de Ginesi, que viveu tanto no Egito quanto na Grécia, trazendo sua experiência e referências para Barcelona.

Em sua reconstrução, o cemitério foi dividido entre dois departamentos. O primeiro e mais antigo, era feito com nichos em paredes que se estendiam por corredores. As lápides se misturam entre modernas e novas, sendo as mais antigas cheias de simbolismos. Em realidade, o cemitério inteiro é repleto deles: em túmulos, mausoléus ou nas lápides mais simples, é impossível não encontrar algo que represente como foi a pessoa em vida, símbolos estes que podem ser sutis ou completamente óbvios.

Na segunda metade do século XIX, o Cemitério de Poblenou foi ampliado, e o segundo departamento surgiu para as famílias da burguesia enterrarem seus entes queridos em mausoléus requintados e repletos de obras de arte. Entre elas, a obra mais famosa do cemitério: “Beso de la muerte”, de Jaume Barba, uma escultura que representa a morte carregando um homem. É impressionante o quanto o artista conseguiu capturar a essência do momento: o corpo inerte, a expressão vazia e olhar cego. Se nos movermos ao redor da escultura, conseguimos perceber os olhos da morte nos seguindo, um lembrete de que ela chega para todos nós.

O Cemitério de Poblenou emerge como um testemunho vivo da rica e complexa história de Barcelona. Ao longo dos séculos, este local sagrado serviu como um reflexo da vida e da morte na cidade, preservando as histórias e memórias de gerações passadas. Desde os seus primórdios até os dias atuais, o cemitério continua a desempenhar um papel vital na preservação da identidade e da cultura de Barcelona, proporcionando um espaço de reflexão e homenagem aos seus habitantes e visitantes. Como um monumento à passagem do tempo, o Cemitério de Poblenou permanece como uma peça fundamental no mosaico histórico da cidade, lembrando-nos da importância de honrar e preservar nossa herança para as gerações futuras.

Uma resposta para “Cemitério de Poblenou é o mais antigo de Barcelona e testemunha a história da cidade através dos séculos”.

  1. […] meu máster, tive a oportunidade de ter uma aula prática com Míriam, onde visitamos o Cemitério de Poblenou, o mais antigo de Barcelona, e pudemos ver de perto como agir em lugares como […]

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Sobre mim

Sou Theresa, cineasta que recém descobriu sua vocação: jornalista de viagens. Me mudei pra Barcelona no início de 2024 para fazer uma pós graduação nessa área e por aqui compartilho minhas histórias e projetos que tenho desenvolvido dessa minha nova fase.