Valsando sozinha: uma viagem pela artística Viena

Divagando sobre arte, música e solidão durante minha (re)descoberta por Viena

Quando fiz 15 anos, ganhei uma viagem de aniversário da minha avó. Nessa idade, as meninas da minha idade iam pra Disney ou faziam uma grande festa. Não se engane: eu fiz também uma grande festa, mas não escolhi a Disney como destino. Escolhi o Leste Europeu, e quis levar meu irmão Felipe comigo. Minha avó sempre viajou muito e sempre escolheu destinos inusitados. Dessa vez não foi diferente: ela que escolheu o roteiro, fechou com a agencia e decidiu o tipo de viagem que faríamos.

Em janeiro embarcamos para a Europa, sendo a primeira parada Viena (antes, perdemos um voo e passamos umas horas passeando em Paris). Quando chegamos, nos surpreendemos: muita neve! E por ter perdido o voo de Paris para Viena, nossas malas também se perderam. Me lembro de ir com a minha avó na H&M para comprar roupa para usarmos nos próximos dias, e também tive que usar algumas roupas dela. Mas nem isso nos abalou: eu me encantei com a cidade e tudo que tinha a oferecer. Apesar de estar muito frio e muitas coisas fechadas por conta da neve, pudemos conhecer bastante e fomos também em concertos de música clássica.

Quando me mudei para Barcelona, um dos destinos que eu tinha na minha lista para viajar era Viena, pois me lembro de ter gostado muito da cidade, mas queria vê-la sem neve e agora sendo uma adulta que aprecia mais a música e a arte. E o destino sorriu pra mim quando recebi um convite inesperado. O hostel Ruthensteiner me convidou para ficar hospedada lá por alguns dias e é claro que aceitei. Em junho, um pouco antes do solstício do verão, estava embarcando (sozinha) para a capital da Áustria mais uma vez. E acredito que ter ido sozinha fez toda a diferença nessa viagem (explico mais sobre isso no final do texto)

Aproveitei minha estadia em Viena para fazer um trabalho de fotojornalismo do mestrado. O objetivo era escolher um tema urbano para contar uma história através de imagens. Escolhi falar sobre um tema que já vinha pesquisando por um tempo: a Secessão de Viena. Apesar de achar o tema fascinante e querer contar mais pra vocês, esse texto não vai ser sobre isso. Eu cheguei a traduzir meu texto para a universidade e copiei aqui, mas percebi que essa divagação tem um caráter mais pessoal, e não acadêmico.

Meses antes de viajar, comprei um ingresso para a Ópera. Eu sabia que queria ver alguma apresentação musical, mas ainda não tinha encontrado alguma que me chamasse a atenção. Pensei em ver algum concerto de Mozart, mas me pareceu clichê. Foi então que comecei a ler mais sobre a Wiener Staatsoper (Ópera Estatal de Viena) e vi que bem no final de semana que eu estaria ali, teria a noite de abertura de uma ópera (não concerto!) de Mozart. Comprei o ingresso mais econômico com visão parcial, mas pelo menos eu iria à Ópera.

O dia da apresentação pareceu deslizar mais rápido, impulsionado pela minha ansiedade de retornar cedo ao hostel, para me arrumar e partir com antecedência. Se a ópera fosse como nos filmes, certamente haveria um prelúdio de socialização, onde taças de champanhe se entrelaçam com conversas elegantes. E era exatamente assim que eu queria me sentir: envolta em um vestido negro, fruto da improvisação de uma blusa e uma saia, com um penteado não muito elaborado e lábios tingidos de vermelho. Ao chegar, o cenário era como eu imaginara: um mar de gente impecavelmente vestida, trocando palavras ao som do tilintar das taças. Sozinha, me aventurei a mergulhar nesse mundo, e ali, encontrei a companhia de uma australiana. Conversamos até que a primeira campainha ecoou, sinalizando o início do espetáculo.

A ópera foi uma experiência inesquecível e mágica. Embora bem longa, havia ao lado do meu assento uma pequena tela que revelava, em palavras, o significado do que era cantado, como se me convidasse a mergulhar ainda mais na narrativa. A história me envolveu por completo, e as melodias, de uma beleza arrebatadora, ressoaram em minha mente. Imaginei que assistir a uma ópera sozinha pudesse ser algo estranho, mas a surpresa foi doce, revelando um encanto que jamais previ.

Os museus de Viena foram o ponto alto da minha viagem. Pude percorre-los com calma, no meu tempo, parando nas obras que mais me atraíam. Quando vi “O Beijo”, de Klimt, fique uns bons 10 minutos parada, admirando. Era um dos quadros que mais tinha vontade de ver, e foi uma emoção indescritível estar na frente dele, vendo o dourado refletir a luz, as cores se misturando perfeitamente, e os amantes, fundidos em um abraço eterno, pareciam transcender a própria tela.

Mas acho que o ápice da minha jornada foi mergulhar na história do império austríaco. Entrar nos suntuosos palácios da família imperial foi algo que nunca vou esquecer. Tanta riqueza, tanta arte, tanta história. É óbvio que comprei audioguia em todos eles para saber mais sobre a história por trás das paredes folheadas a ouro. De repente eu me transportava para aquela época onde vestidos de seda farfalhavam pelos salões de baile, onde cavalheiros beijavam as mãos das damas, convidando-as para dançar as valsas da época.

O que mais me surpreende é que Viena ainda carrega a tradição das valsas, é algo que ainda é levado muito a sério. Antigamente, quando as meninas completavam 16 anos, eram enviadas para uma escola de dança, onde aprendiam as coreografias mais famosas. E hoje a cidade ainda é palco de bailes ao som de Strauss, sendo o mais famoso deles o Baile de Ano Novo, que acontece todos os anos e é transmitido pela televisão. E todo mundo assiste, é como se fosse o novo especial de fim de ano com Roberto Carlos, mas troque o É Preciso Saber Viver por Danúbio Azul.

Minha breve porém muito proveitosa passagem por Viena me fez criar uma conexão especial com a cidade. Foi minha primeira viagem sozinha do ano, o que me deixou de certa maneira um pouco melancólica, pois já vinha viajando com amigas desde janeiro. Mas a melancolia se transformou em entusiasmo, e eu pude explorar a cidade do meu jeito. Me apaixonei pela arte de Klimt, pela música de Mozart e Strauss, pelo sol que me recebeu desde o primeiro dia e também pela recepção dos austríacos, que foram muito simpáticos comigo.

Se forem a Viena, sugiro que viagem sozinhos. Percorrer as ruas ao som das valsas de Strauss foi uma experiência inesquecível, algo que não ousaria compartilhar com outra pessoa – seria como trair a delicadeza do momento. Além disso, me pareceria falta de educação. Minha única companhia foram as grandiosas construções de Viena e as valsas que dançavam suavemente nos meus fones de ouvidos.


Uma resposta para “Valsando sozinha: uma viagem pela artística Viena”.

  1. wow!! 31Valsando sozinha: uma viagem pela artística Viena

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Sobre mim

Sou Theresa, cineasta que recém descobriu sua vocação: jornalista de viagens. Me mudei pra Barcelona no início de 2024 para fazer uma pós graduação nessa área e por aqui compartilho minhas histórias e projetos que tenho desenvolvido dessa minha nova fase.