Entre fachadas sinuosas e símbolos misteriosos, a arquitetura modernista de Barcelona revela um mundo de significados ocultos, inspirados pela alquimia, maçonaria e mitologia

Entre salamandras coloridas, símbolos misteriosos, escrituras em outras línguas, cores e geometria, o modernismo catalão, com suas formas orgânicas, foi palco de uma corrente onde o esoterismo e o misticismo se entrelaçavam com a arte. Nomes como Gaudí, Domènech i Montaner e Puig i Cadafalch deixaram marcas enigmáticas em suas criações, carregadas de símbolos ocultos e referências à maçonaria, à alquimia e ao culto à natureza. Em um período de intensa efervescência artística e cultural, os arquitetos modernistas de Barcelona não apenas construíam para a cidade – eles criavam portais para o invisível, para o transcendente.
O que esses visionários buscavam? Que segredos estão codificados em suas obras? O legado do modernismo catalão vai além do que os olhos podem ver, e por trás das fachadas esconde-se um mundo de significados, onde a arte e o misticismo caminham lado a lado.
A verdade é que esses elementos místicos não têm uma interpretação concreta nas obras modernistas espalhadas por Barcelona, justamente por não ser uma ciência exata. A alquimia, por exemplo, é uma antiga prática filosófica que combinava elementos de química, física, medicina, astrologia, misticismo e espiritualidade. Ela floresceu principalmente na Idade Média e no Renascimento, com raízes nas antigas tradições egípcias, gregas, romanas, chinesas e indianas.
O esforço mais famoso da alquimia era a tentativa de transformar metais comuns, como o chumbo, em ouro, o que simbolizava a perfeição e a pureza. Essa busca envolvia o uso de uma substância lendária chamada Pedra Filosofal, que supostamente teria o poder de realizar essa transformação. Embora a alquimia seja frequentemente vista como uma prática mística, ela contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento da química moderna.

Já a maçonaria, também muito ligada aos arquitetos modernistas, é uma sociedade fraternal e discreta (e não secreta, como muitos pensam), que surgiu na Europa, especialmente na Inglaterra, no início do século XVIII, embora suas origens possam remontar à Idade Média, quando associações de pedreiros e construtores eram organizadas em guildas. Essas guildas de pedreiros (ou “maçons”, em francês) teriam se reunido para compartilhar técnicas de construção e proteger segredos profissionais, e com o tempo, essas reuniões evoluíram para uma ordem filosófica e simbólica. É por esse motivo que os arquitetos teriam simpatia ou muitas vezes uma ligação mais concreta com a maçonaria. A maçonaria utiliza muitos símbolos ligados à arte da construção, como o esquadro, o compasso, a pedra bruta e a pedra polida. Esses símbolos representam ideias como moralidade, aperfeiçoamento pessoal e o trabalho para “construir” um ser humano melhor.
Não há nada comprovado que os arquitetos da época tinham alguma relação com a alquimia ou a maçonaria, mas é certo que existem de fato elementos em suas obras que nos levam a pensar que teriam pelo menos alguma simpatia com essas filosofias.
“Não há nada muito difuso em relação a isso, nada está comprovado”, diz Gal·la Garcia Casarramona, técnica de gestão museística do Palau Güell, em Barcelona. “Esse tema de misticismo e ocultismo na arquitetura modernista catalã realmente existe, sempre se fala e se comenta sobre isso, mas a verdade é que não existe nenhuma base. É algo muito interpretativo”.
Gal·la ainda me conta um pouco sobre as formas orgânicas que encontramos nas construções, como flores, árvores e plantas. Esse jeito único de construir pode estar relacionado com esses elementos místicos, uma maneira de incorporar a urbanização na natureza. Isso é evidente em obras famosas de Gaudí como o Parc Güell e a Sagrada Família, onde as colunas nos remetem a árvores.

Em relação à alquimia, existe um símbolo de Gaudí que remete a essa filosofia. Milhares de turistas tiram fotos diariamente ao seu lado, mas poucos sabem seu significado. A salamandra presente no Parc Güell era um símbolo da resistência e purificação por meio das chamas. Assim, ela representava o ser capaz de suportar adversidades e emergir mais forte. Na maçonaria, seu significado pode variar, mas mantém o conceito de purificação e transformação através de provações. A salamandra era tão importante para Gaudí, que além da estátua do parque, ele escondeu outras por suas obras, como, por exemplo, em uma das chaminés do Palau Güell.


Saindo da Cidade Velha e subindo até o Passeio de Grácia, nos deparamos com outra obra de Gaudí, uma das mais famosas da cidade. A Casa Batlló é frequentemente interpretada de maneira simbólica que inclui temas de transformação e espiritualidade. A fachada ondulante e o telhado em formato de escamas são frequentemente associados à lenda de São Jorge e o dragão, onde São Jorge (patrono da Catalunha) derrota o dragão.


Logo ao lado da Casa Batlló, encontramos a obra de outro simpatizante dos temas esotéricos: Josep Puig i Cadafalch. Em uma das suas obras mais famosas em Barcelona, a Casa Amatller, vemos alguns elementos que têm relação com a alquimia e a outras tradições místicas. Nas fachadas e decorações internas, encontramos alguns detalhes que podem remeter a esses temas, como o uso de símbolos que representam transformação e transmutação, conceito próximo ao processo alquímico de transformar o simples em algo elevado.
Essas construções modernistas, vistas por milhões de turistas todos os anos, oferecem mais do que a aparência visível: elas são quase um enigma, convidando os observadores a lerem nas entrelinhas e a explorarem os códigos e símbolos escondidos em suas formas e cores. A união entre misticismo e arquitetura, típica do modernismo catalão, faz com que cada elemento arquitetônico possa ser interpretado como uma passagem para o conhecimento espiritual.
Ao observar esses elementos, fica claro que Barcelona não é apenas uma cidade de monumentos e beleza estética; ela é, também, um mapa simbólico. Esses edifícios foram projetados para serem contemplados de forma introspectiva, para provocar questionamentos, como se estivessem sugerindo aos visitantes que busquem dentro de si mesmos os segredos que eles representam. A jornada entre as obras modernistas de Barcelona pode ser vista como um caminho iniciático, onde o explorador, como um alquimista ou maçom em busca do conhecimento, descobre símbolos, decifra enigmas e é inspirado a uma compreensão mais profunda do mundo e de si mesmo.
O mistério que rodeia essas obras modernas continua sendo parte do legado cultural da cidade. Elas nos lembram que, por trás de toda arte, existem histórias, crenças e significados que se entrelaçam com o tempo, desafiando a nossa compreensão e revelando a complexidade da condição humana. Em última análise, o modernismo catalão convida todos a experimentar o invisível, sugerindo que, talvez, o verdadeiro tesouro não esteja nas fachadas das obras, mas nas perguntas que elas inspiram.












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