Kilts, gaita de fole e whisky: o que faz da Escócia tão única? 

Descobrindo a cultura e as tradições que tornaram a Escócia tão famosa e seus costumes tão difundidos pelo mundo inteiro

Ilha de Skye

Localizada no extremo norte da ilha da Grã-Bretanha, a Escócia é uma terra rica em história, cultura e tradição. Entre os muitos aspectos que tornam esta nação única, destacam-se o uso do kilt, a música da gaita de fole e a produção de whisky de renome mundial. Por trás desses símbolos icônicos, há uma história tumultuada marcada por conflitos entre clãs e confrontos com o poderoso reino inglês.

Uma breve história da Escócia

A origem do país remonta aos tempos antigos, com as tribos celtas que habitavam a região por volta do século VI a.C. Essas tribos formaram uma sociedade agrária e guerreira, conhecida como os pictos, que deixaram vestígios de sua cultura em toda a Escócia, especialmente nas Highlands (Terras Altas). Por volta do século I d.C., os romanos começaram a expandir seu império para o norte da Grã-Bretanha, encontrando resistência dos pictos. A construção da Muralha de Adriano foi uma tentativa de delinear a fronteira entre o território romano e as terras dos pictos, embora nunca tenha sido uma fronteira eficaz.

No século V d.C., com a retirada das legiões romanas da Grã-Bretanha, a Escócia foi palco de migrações e invasões de várias tribos germânicas, como os anglo-saxões. Nesse período, surgiu o Reino de Dalriada, uma entidade política formada por colonos gaélicos vindos da Irlanda, que se estabeleceram na costa oeste da Escócia. Essa fusão entre os povos celtas e os colonos gaélicos é um dos elementos que moldaram a identidade escocesa.

A partir daí, a cultura e as tradições escocesas que conhecemos até hoje começam a tomar forma. E são justamente essas tradições e símbolos que seguem atraindo turistas até os dias de hoje. Mas além desses fatores simbólicos, a Escócia também atrai turistas por conta de suas paisagens e vida natural.

“A Escócia é um país repleto de paisagens naturais e cenários de tirar o fôlego. Seja por seus lagos reluzentes, costas rochosas e praias de areia, ou por suas montanhas imponentes e florestas encantadas, as paisagens e cenários naturais da Escócia realmente vão tirar o seu fôlego.”. É o que diz Graham McIvor, Gerente de Relações Públicas do site Visit Scotland. De acordo com ele, a natureza da Escócia é algo que não se compara com muitos lugares da Europa, pois além de lindas vistas, a zona rural escocesa também é um lugar mágico, diferente de tudo.

“Temos parques nacionais deslumbrantes, reservas naturais nacionais renomadas por sua preciosa vida selvagem e habitats, Geoparques da UNESCO e Sítios do Patrimônio Mundial da UNESCO. Quando você também leva em consideração a calorosa recepção escocesa, a conexão genuína com as comunidades e a vivência de experiências locais, a Escócia é realmente um destino de classe mundial.”, diz McIvor.

A Escócia agrada todo tipo de viajante, e é possível juntar em uma única viagem aspectos históricos e também ecoturismo. Hoje vamos focar nas tradições e símbolos escoceses que são únicos do país e que tornam a nação tão especial.

Tartãs e Kilts: a identidade visual escocesa

Impossível pensar na Escócia e logo não associar a imagem aos tartãs e kilts. Os tartãs, padrões de tecido xadrez que identificam clãs e famílias escocesas, têm uma história antiga e complexa. Embora haja evidências de tecidos xadrez na Escócia que remontam ao século III d.C., os tartãs como os conhecemos hoje começaram a se desenvolver no final da Idade Média. Inicialmente, os padrões eram usados como forma de identificação regional ou ocupacional, mas ao longo do tempo, passaram a representar associações com clãs específicos.

Foto de Lucrezia Carnelos na Unsplash

O uso dos tartãs como símbolos de afiliação ao clã cresceu durante os séculos XVI e XVII. Durante esse período, o governo escocês tentou regular o uso dos tartãs como uma forma de controle social, mas isso não impediu que eles se tornassem um símbolo de orgulho e identidade para os escoceses.

Durante o século XVI, o kilt moderno começou a tomar forma. Feito com os tartãs, os kilts eram a peça de vestuário usado pelos highlanders, para assim identificarem facilmente de qual clã eles vinha. Os kilts modernos eram geralmente feitos de lã e eram usados em conjunto com outras peças de roupa tradicionais, como camisas, coletes e jaquetas.

Foto de Melody Ayres-Griffiths na Unsplash

Durante o século XVIII, o kilt e o tartã foram promovidos como símbolos da cultura escocesa durante o movimento do Iluminismo Escocês. Este movimento, que viu um ressurgimento do interesse na cultura e história escocesas, ajudou a popularizar o uso dos kilts e tartãs não apenas na Escócia, mas também entre as comunidades escocesas no exterior. Era um símbolo tão importante que, depois da derrota dos escoceses para o exercito britânico, o seu uso foi proibido na região, assim como a língua galega.

Hoje em dia é possível encontrar milhares de souvenires nas lojas espalhadas pela Escócia, geralmente associando aos clãs das Terras Altas. Impossível sair do país sem ao menos comprar um cachecol, uma caneca ou um porta-moedas xadrez. Eu mesma comprei cachecol pra mim e pra minha família da primeira vez que viajei pra lá. Mas não se engane: não são todos os lugares onde o tecido é legítimo. Existe um selo de legitimidade e os cachecóis que são feitos com pele de ovelha e mais “tradicionais” não são vendidos por menos de 20 euros.

Ame ou odeie: a gaita de fole

O som da gaita de fole com certeza não agrada à todos. O barulho estridente pode ser irritante e estressante. Ao andar pela Royal Mile em Edimburgo, você ouve o som desse instrumentos a cada esquina, e depois de muitos dias por lá, as chances de você enlouquecer são muito altas. Mas também pode ser um grande aliado: quando viajei para a Escócia com minhas amigas, eu as acordava todos os dias com músicas típicas do folclore escocês na gaita. Era infalível, elas acordavam na hora.

Conhecida também como bagpipes (pois se carrega como se fosse uma bolsa), é um dos instrumentos mais antigos do mundo. A sua origem é incerta, mas há evidências de instrumentos semelhantes em civilizações antigas, como os sumérios e egípcios, por volta de 3.000 a.C. Foi durante o Império Romano que a gaita se espalhou pela Europa. Os romanos a chamavam de “tibia utricularis” e a utilizavam em contextos militares e cívicos. À medida que o Império se expandiu, levou o instrumento a diversas partes do continente, onde o instrumento foi adotado e adaptado pelas populações locais.

Foto de Benjamin Hibbert-Hingston na Unsplash

Na Escócia, esse peculiar instrumento se tornou um símbolo nacional e ficou enraizada na cultura e na tradição, sendo usada em cerimônias militares, festivais e até em funerais. A “Great Highland Bagpipe” se tornou emblemática das forças armadas escocesas e é uma presença constante em eventos culturais e históricos. Uma curiosidade interessante é que a Rainha Elisabeth era uma grande apreciadora da gaita de fole, e ela mesma escolheu a canção que tocou no seu funeral. Você pode ouvi-la aqui.

Puro ou com gelo? O Whisky na Escócia

O líquido âmbar mundialmente conhecido não é para todos – é preciso ter coragem pra tragar um whisky com gelo, sendo o puro apenas para os mais fortes. O whisky é conhecido na Escócia como “uisge beatha” em gaélico, que significa “água da vida”, e sua origem é envolta em mistério.

Acredita-se que a destilação foi introduzida na Escócia por monges irlandeses por volta do século VI ou VII. Esses monges destilavam álcool a partir de cereais para produzir remédios e poções. A destilação em si já era conhecida em outras partes do mundo, como no Oriente Médio, onde era usada para criar perfumes e medicamentos.

Foto de Brian Taylor na Unsplash

O primeiro registro histórico da destilação de whisky na Escócia data de 1494, em um documento do tesouro escocês que menciona a concessão de “oito bolas de malte a um frade chamado John Cor para fazer aqua vitae”. Isso sugere que a produção de whisky já era uma prática estabelecida na época.

Nos séculos seguintes, a produção de whisky se espalhou pela Escócia, principalmente nas Highlands. O país, com seu clima ideal para o cultivo de cevada e sua abundância de água pura, proporcionou condições perfeitas para a produção do destilado.

Durante o século XIX, o whisky escocês começou a ganhar popularidade fora da Escócia, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos. O whisky de malte, em particular, começou a se destacar.

Hoje, o whisky escocês é uma das maiores exportações do país e é amplamente apreciado em todo o mundo. A Escócia é lar de mais de 130 destilarias ativas, cada uma contribuindo para a rica diversidade de estilos e sabores que fazem do whisky escocês uma bebida única.

Monstro do Lago Ness

A Escócia também é conhecida por suas lendas e contos de fadas, principalmente nas Highlands. Quando fui pra lá, cada montanha, riacho, cachoeira ou ilha tinha uma história fantástica por trás, de seres como sereias, duendes, fadas e monstros.

Falando em monstros, não podemos deixar de falar nela, a Nessie. O Lago Ness, no norte do país, é talvez um dos lugares mais visitados da Escócia. Isso porque turistas e curiosos do mundo inteiro querem chegar perto do lago turvo onde foi construída a reputação de ser assombrado por um monstro gigante.

A lenda de uma criatura misteriosa no Lago Ness remonta a mais de mil anos. O primeiro relato escrito sobre um monstro no lago data do século VII, na obra Vida de São Columba (Vita Columbae), escrita por Adomnán de Iona. São Columba, um missionário irlandês, teria supostamente encontrado uma “besta aquática”. Desde então, existem muitos relatos descrevendo supostas aparições do monstro.

Um dos relatos mais famosos aconteceu em 1933, quando George Spicer e sua esposa afirmaram ter visto uma grande criatura cruzando a estrada em frente ao carro deles e entrando no lago. Este avistamento, junto com outros, foi amplamente divulgado pela mídia e alimentou a especulação sobre a existência de uma criatura desconhecida no Lago Ness.

A história do monstro atingiu o auge da notoriedade em 1934 com a publicação da chamada “Fotografia do Cirurgião” (Surgeon’s Photograph), tirada por Robert Kenneth Wilson. A imagem, que mostrava o que parecia ser um longo pescoço e uma pequena cabeça emergindo da água, foi amplamente considerada como prova da existência de Nessie.

Surgeon’s Photo | Robert Kenneth Wilson

Décadas mais tarde, em 1994, foi revelado que a fotografia era uma fraude. Um dos participantes da farsa confessou que a “criatura” era na verdade um modelo de brinquedo preso a um submarino de brinquedo. Mesmo assim, a fotografia já havia consolidado o mito do Monstro do Lago Ness na cultura popular.

A história do Monstro do Lago Ness é uma mistura de mitologia, folclore, especulação e, possivelmente, ilusões coletivas. Mesmo sem provas concretas, Nessie continua a cativar a imaginação das pessoas em todo o mundo (principalmente dos escoceses).

Outros símbolos escoceses

Se eu continuar falando sobre outros símbolos e tradições escocesas, isso aqui vira um livro. Já falamos dos principais emblemas dessa país fascinante, mas existem outros que não são tão conhecidos. Por exemplo: você sabia que o símbolo nacional da Escócia é o unicórnio? Por ser um país que sempre teve o misticismos como algo muito forte, os escoceses escolheram este animal mitológico como símbolo, pois seria o único animal que derrotaria um leão, que é o símbolo da Inglaterra. Um humor negro sutil, mas que se você para pra pensar na história do conflito desses dois territórios, vai entender que faz muito sentido.

Já viajei para a Escócia duas vezes, e sinto que tem algo no país que me atrai de uma maneira mística. Não só pela história e pelas lendas, mas também pelo misticismo que pairam no território. Ainda quero voltar outras vezes e continuar desvendando os mistérios e os mitos por trás das histórias que ouvimos dos locais. Tenho certeza que a Escócia nunca vai parar de surpreender.

Deixe um comentário

Sobre mim

Sou Theresa, cineasta que recém descobriu sua vocação: jornalista de viagens. Me mudei pra Barcelona no início de 2024 para fazer uma pós graduação nessa área e por aqui compartilho minhas histórias e projetos que tenho desenvolvido dessa minha nova fase.