A Essência da Catalunha: uma jornada pelas tradições da região

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Bonecos que “cagam”, torres humanas, troncos de Natal… A Catalunha com certeza possui tradições únicas e bem diferentes do restante da Espanha. Vamos explorar algumas delas?

Quando decidi me mudar para Barcelona, sabia pouco sobre as tradições locais. O que eu conhecia se resumia ao fato de que a Catalunha é uma região marcada pelo movimento independentista, que luta há anos por sua separação do restante da Espanha, e que o catalão é uma de suas línguas oficiais. Fora isso, a identidade catalã era um mistério para mim. Felizmente, ao longo deste ano, tive a oportunidade de mergulhar mais fundo nesse universo fascinante.

A Espanha é famosa por sua intensa vida festiva, com um calendário repleto de feriados e celebrações. Mas a Catalunha se destaca ainda mais, sendo uma das regiões com o maior número de festius (como os feriados são chamados em catalão). Além das celebrações nacionais espanholas, há datas exclusivas que moldam a identidade catalã, como o Dia de Sant Jordi, a Festa de la Mercè e o Dia Nacional da Catalunha. Essas festividades são recheadas de símbolos e tradições que refletem a essência do povo catalão.

Separei as minhas tradições favoritas e, com base no que vivi em 2024 e no que aprendi com amigos, vou contar sobre elas.

Sant Jordi

O Dia de Sant Jordi não é um feriado oficial, mas é uma das datas mais especiais na Catalunha. Vivenciar essa celebração em 2024 foi uma das experiências mais marcantes do meu primeiro ano em Barcelona.

A data, celebrada em 23 de abril, homenageia um dos padroeiros da Catalunha e se baseia na lenda de São Jorge. Segundo a história, ele foi chamado para salvar uma princesa capturada por um dragão. Após derrotar a criatura, uma rosa brotou do sangue do dragão, simbolizando o amor puro entre o herói e sua donzela.

Na Catalunha, Sant Jordi é uma espécie de Dia dos Namorados. As ruas ganham um ar romântico e são tomadas por barracas de livros e rosas. Tradicionalmente, os homens presenteavam as mulheres com rosas, e as mulheres retribuíam com livros. Hoje, os dois presentes costumam ser dados juntos.

Em Barcelona, a cidade inteira entra no clima. O Passeig de Gràcia, uma das avenidas mais emblemáticas, se transforma em um grande mercado ao ar livre, e lugares como a Casa Batlló são decorados com rosas. É uma época perfeita para visitar a cidade e se encantar com essa celebração.

Caganer

Essa talvez seja uma das tradições mais curiosas da Catalunha. Se você já foi para Barcelona, talvez tenha se deparado com alguma loja de souvenir onde estão dispostos em prateleiras intermináveis bonecos literalmente defecando. Sim, você leu certo. O Caganer é uma figura típica do presépio catalão, representando um homem vestido com roupas tradicionais catalãs, como o típico gorro vermelho – a barretina – agachado e fazendo o número 2. Apesar de parecer inusitado, tem um significado interessante. 

O Caganer é visto como um símbolo de riqueza e prosperidade, e as imagens feitas de argila começaram a circular entre o século 17 e 18. Naquela época, a ideia de defecar era ligada a coisas boas. Só quem comia comidas ricas em gorduras, proteínas e fibras defecava, ou seja, os ricos. Então o processo fisiológico era relacionado com boa saúde. Por isso, ao colocar uma figura do Caganer no presépio na época do Natal, a família teria sorte, prosperidade e riqueza. 

Hoje em dia, é comum encontrar Caganers de figuras públicas, políticos, celebridades e personagens infantis, mas o homenzinho com a barretina é o mais tradicional.

Caga Tío: o tronco que defeca

Não se pode negar que os catalães têm uma certa afinidade com o ato de defecar. O Caga Tío é uma outra tradição da época de Natal, mas esse é um tronco de árvore com uma cara super simpática, um nariz comprido e olhos gentis (e claro que ele está usando a barretina). E ao contrário do Caganer, o Caga Tío defeca presentes e doces, e não excrementos. 

Theresa Gallian, Barcelona 2024

Ele funciona como uma espécie de piñata: as crianças devem bater no tronco até que caiam os presentes. Durante a “bateção”, eles devem cantar uma música em catalão:

Caga tió 

Caga torró, avellanes i mató / Solte torrone, avelãs e mató 

Si no cagues bé / Se você não defecar direito

Et daré um cop de bastó / Vou bater em você com um bastão

Caga tió / Tronco que defeca

Enquanto as crianças estão metendo o pau no Caga Tío (literalmente), os pais estão escondendo doces e guloseimas pela casa para que procurem depois.

Castells

Os Castells são talvez uma das tradições mais emblemáticas da Catalunha. Declarados Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2010, esses “castelos humanos” são formados por grupos chamados castellers.

As torres podem atingir alturas impressionantes, e o momento mais emocionante é quando uma criança escala até o topo. A construção exige equilíbrio, força e técnica. Na base, ficam os mais corpulentos, e, nos andares superiores, as pessoas mais leves.

Os castellers vestem trajes típicos: calça branca, faixa preta para sustentar a lombar e camisas coloridas que variam de acordo com a região ou ocasião.

Essa tradição está presente em muitas festas locais, sendo um espetáculo imperdível para quem visita a região.

Explorar as tradições catalãs me fez perceber o quanto a cultura de um lugar é mais do que costumes ou eventos — ela é uma forma de transmitir histórias, valores e identidade. Cada celebração, desde a delicadeza de Sant Jordi até o humor peculiar do Caganer e do Caga Tió, reflete a alma da Catalunha: criativa, apaixonada e profundamente conectada às suas raízes.

Viver em Barcelona me deu a chance de ir além do óbvio e mergulhar em uma cultura rica e singular. Aprender sobre essas tradições não apenas ampliou minha visão de mundo, mas também fortaleceu minha admiração por essa região tão especial. Essas experiências me ensinaram que, mais do que visitar um lugar, vale a pena viver suas histórias e incorporar um pedacinho delas na nossa própria trajetória. E isso, sem dúvidas, é o maior presente que a Catalunha me deu.

 Só me arrependo de não ter trazido um Caganer na mala!

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Sobre mim

Sou Theresa, cineasta que recém descobriu sua vocação: jornalista de viagens. Me mudei pra Barcelona no início de 2024 para fazer uma pós graduação nessa área e por aqui compartilho minhas histórias e projetos que tenho desenvolvido dessa minha nova fase.